Arquivo | março, 2012

Sobre talentos, esforços e invejas

11 mar

Esforços

Estou quase terminando minha Licenciatura em Letras. Já passei, estou passando e ainda passarei por todas as crises possíveis relativas a isso. No momento, acho que vida deveria se chamar crise.

Isso é uma coisa bacana, pois é claro que uma das perguntas mais encasquetantes da minha infância era “por que xale se chama xale”.

Se não tivesse entrado no curso de Letras, teria feito licenciatura em música na Belas Artes. A decisão me parece mais complicada hoje do que realmente foi naquela época. A verdade é que eu simplesmente não estudei para entrar em Letras. Fiz cursinho, sim. Mas não estudava. Passava os dias estudando música e por um ano eu fui uma moça que entendia muito sobre isso. Não sabia tudo, isso é impossível! Mas tinha um nível de entendimento muito alto. Para mim, quando se “entende” uma coisa, até mesmo seus fios de cabelo possuem o entendimento (e então a coisa entendida se torna praticamente inexplicável, por ser muito íntima). De qualquer forma, não me matriculei em música e praticamente abandonei a música ao entrar na universidade. Sem leitura, sem prática, sem nada.

A verdade é que, quando penso naquele primeiro ano de faculdade, vejo que estava drasticamente abalada e deprimida. Dali em diante, nunca mais tive a mesma prática de piano. Minhas habilidades praticamente deixaram de existir. Como minha memória é fraca, abandonei também todas as informações que tinha sobre história e teoria musical. E assim estou até hoje.

Mesmo assim, nesses 4 anos fiz várias tentativas de retomar a prática. Várias coisas me prejudicaram, mas sei que a única coisa que se precisa para fazer o que se quer é força de vontade. E isso eu só tinha pela metade. Este ano fiz mais uma dessas tentativas e tudo estava indo bem. Não retomei as aulas de piano, pois não tenho o instrumento em casa, nem um teclado e me mudei para bem longe da casa da minha professora, o que me impedia de ir praticar todo dia (por 4 horas) como antigamente. Escolhi a técnica vocal.

Sempre amei cantar. Desde que me lembro por gente, fazia parte de um coral. Por uns 3 anos, na minha infância, fazia parte de dois corais, além de frequentar os ensaios do “coral dos adultos”, do qual minha mãe fazia parte. Ia com eles nas viagens e tudo. Uma vez me chamaram no palco e me apresentaram como mascote. Fofo.

Tudo bem, eu amo cantar. Mas não canto bem e garanto que não se trata de um excesso de auto-crítica, ou uma tentativa de angariar elogios (ai, capaz guria, você canta muito bem!). É a verdade. Assim como nunca fui uma boa pianista. Eu era apenas uma pessoa muito esforçada e todos os professores que tive gostavam de mim por isso. Há os alunos talentosos, os esforçados e os nulos. Eu era a esforçada.

Tenho uma amiga muito talentosa, a Eliz, quem eu admiro muito. Foi ela que me fez perceber essa diferença entre talento e esforço.Não sei exatamente como explicar, mas quando me deparei com ela, ficou muito claro que eramos diferentes. Tudo para ela era mais natural, enquanto pra mim exigia suor. No piano, ela conseguia tocar coisas muito mais difíceis, muitas vezes sem nem ter partitura. Já eu estudava tudo até a morte. Lembro de ter 13 anos e ouvir de minha mãe: “Você precisa tocar com mais emoção! Parece que você está tocando com raiva!”. A peça era uma simplificação da Sonata ao Luar, de Beethoven. Não havia nada a se fazer, eu era o triunfo da técnica!  O lado bom disso é que percebi que mesmo a ausência de talento pode ser superada pela dedicação. Não acredito que o resultado será o mesmo, mas terá um valor muito grande, pelo menos pra pessoa que se sabe superador de seus desafios.

Consciente disso, estava contente com a possibilidade de des-desafinar. Eis que  a crise, digo, vida, resolveu me trollar e minha professora foi forçada a abandonar minhas aulas pois havia trocado de emprego e passaria a trabalhar todos os dias, o tempo inteiro. Não fiquei chateada, porque sei que é, no momento, o que ela precisava. Mas fiquei triste sim. É ruim tentar tirar do fundo do seu âmago uma força de vontade que você nem sabe se tem, e esbarrar em coisas como esta.

Para não desistir logo no primeiro momento e tentar me convencer de que eu posso ser uma pessoa forte, fui atrás de dois professores que tive no segundo grau. Para encurtar a história, eles não poderiam me atender, por falta de horários. Não sei bem como mas de repente estava no Coral da minha universidade, para ver se teriam pelo menos alguma informação para me dar sobre aulas de canto. Descobri que aquela era exatamente a semana de testes para entrar no Coro e quem estava aplicando esse teste era a professora do segundo grau que eu tinha procurado antes. Não, também não havia nenhuma forma de eu ter as ditas cujas das aulas. Okay, é uma pena. Já estava tão preparada pra ouvir isso que nem me surpreendi e agi com muita dignidade. Porém, nos 45 minutos do segundo tempo, a professora falou: “Ah, tá bom, aparece na sala tal na quarta feira que eu te encaixo nos horários! Não tem problema”.  E então eu vi que era o esforço que me fazia merecedora, novamente.

A quarta feira ainda não chegou, estou com muito medo e muito ansiosa, mas quero me provar capaz. Quero resgatar a motivação e o esforço que deixei pra trás, e nenhuma falta de talento vai me impedir. Nem as milhares obrigações acadêmicas.

Talentos

Hoje em dia eu sei que escolhi o curso de Letras porque tenho “talento” para aprender idiomas estrangeiros. Falar isso é muito estúpido. Conheço algumas pessoas que falam 5 idiomas e sempre tem aquele que fala 20, não é?  Eu, além de minha língua materna, conheço inglês e francês e, sim, tem muita auto-crítica aí para me fazer dizer que conheço esses idiomas ao invés de dizer que “sei”. E aquela coisa de que “só sei que nada sei” é a lei aqui. Tenho muita preguiça de gente que acha que ou se sabe ou não se sabe um idioma.  Ou qualquer outra coisa. (Sinceramente, alguém acredita mesmo que é possível deter o “conhecimento completo” de alguma coisa? Pior é ter que ouvir isso de universitário!)

De qualquer forma, alguma coisa em mim acha que é esse o meu talento e eu acho que concordo. O motivo mais provável é que eu não preciso me esforçar para conseguir o que consigo, faço por prazer. Talvez eu devesse começar a me esforçar e então eu seja entrevistada por alguma revista.

Invejas

Muitas vezes ouço alguém falar em “inveja boa” ou “inveja branca”. Eu mesmo já me peguei usando isso como se fosse um conceito que eu entendesse mas… juntar “inveja” com “boa” só em textos poéticos. Inveja, pelo menos pra mim, vai além de “admirar+desejar aquilo para si”. Além de querer ter-ser o que o outro tem-é,  invejar é querer que o outro pare de ter-ser aquilo! É uma coisa bem egoístas. Digo isso porque invejo as pessoas que são felizes e no fundo eu queria mesmo é roubar a felicidade delas. Ou talvez eu seja muito sacana mesmo.