Arquivo | abril, 2013

Brasil e França : comparações, eternas comparações

15 abr

Nessa semana, um texto escrito por um parisiense que mora em BH fez muito sucesso no facebook – ou, pelo menos, na minha timeline, cheia de professores e estudantes de francês. Nele, o autor lista nada menos que 65 características do Brasil, algumas bem óbvias, já bastante estereotipadas (todo mundo torce pra um time de futebol), e outras bem interessantes e curiosas. O texto está em português, logo foi pensado para nós brasileiros e recomendo a leitura a todos. Clique aqui para visualizar o texto de Olivier.

Meu amigo Ton me deu a ideia de escrever uma lista parecida e eu achei que seria um exercício interessante. Acabei modificando um pouco e vou comentar alguns dos pontos do texto original. Por hoje vou ficar com apenas três.

3-Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos.

Se alguém ainda não sabe, aqui os atendentes em geral pegam a comida com a mão mesmo, e é claro, o dinheiro também. Eu continuo achando isso nojento. Também não entendo o esquema de carregar bagette em baixo do braço. Geralmente ela vem embrulhada em um pedaço de papel que cobre apenas a parte central, ou num pacote de papel que é pequeno demais para que o pão caiba inteiro, então fica um bom pedaço pra fora, como na foto abaixo:

Escolhi essa foto com as pontas já comidas porque é assim mesmo, o povo vai comendo os pedaços no caminho pra casa. Até eu já fiz isso só pra ver qualéqueé e achei ruim, porque pão seco não é exatamente uma delícia. Também não sou fã da baguette porque ela não se encaixa no meu estilo de vida. Ela é grande demais pra uma pessoa só e não dá pra deixar para o outro dia, porque vira uma pedra do dia pra noite. Dizem que se colocar na geladeira e requentar no microondas fica bom, mas eu tentei e não deu certo. E eu definitivamente não sou do tipo que vai todo dia de manhã comprar pão fresco e sempre achei que o pão francês (aquele que só existe no Brasil) fica mais gostoso amanhecido. Já ia esquecendo de dizer que todas as vezes em que comprei uma baguette ela quebrou no meio enquanto eu voltava pra casa. Não sei se o problema sou eu ou se é preciso ser francês pra nascer sabendo como carregar baguette sem quebrá-la.

8- Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camisetas qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.

Eu demorei cerca de dois meses pra parar de achar que todos os franceses eram gays. Sei que soa ridículo, mas mostra muito que o comentário feito por Olivier é verdadeiro: em geral, no Brasil, os homens não se vestem bem e quando se vestem, achamos que são gays. Mesmo em Curitiba, onde faz frio, o uso de cachecol por homens, por exemplo,  ainda não é muito comum. Apesar de eu achar que nos últimos dois invernos isso mudou um pouco, ainda parece que homem que usa cachecol é fashionista (gay! – dirão) e não só uma pessoa que não quer sentir frio e ter dor de garganta. Meu único amigo francês já fez comentários sobre sua roupa dizendo que  “isso está ‘in’ agora” e sim, todos pensamos “que gay”.

Em geral, os franceses – homens, mulheres e crianças também – são bem vestidos. Claro que sempre há exceções, mas as pessoas usam mais sapatos que tênis, as mulheres usam salto quase o tempo todo, os homens usam bolsa, etc. Eu trouxe algumas peças de roupa do Brasil que eu costuma usar só em ocasiões um pouco mais especiais e que aqui eu posso colocar pra ir no mercado sem me sentir arrumada.

Por outro lado, eu imaginava que as pessoas seriam mais criativas e individuais na maneira de se vestir, e percebi que a grande maioria se veste de forma muito parecida, seguindo evidentemente a moda do momento. Nas viagens que fiz para Berlin e Londres me pareceu evidente a diferença com a França: em Berlin vi muitas pessoas com estilos alternativos (do tipo que chama atenção mesmo) mas em geral as pessoas se vestem meio esculhambadas; em Londres a maioria se veste bem, mas percebi muito mais diferenças de estilo que na França, dando a impressão de que as pessoas tem mais estilo (próprio).

45-Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. E natural acolher alguem novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros. 

Não vou dizer que franceses não sejam receptivos. Eles são muito legais, principalmente se for numa festa ou num bar. Mas em outros ambientes eles tem um jeito peculiar de ser que acabamos facilmente achando que é estupidez. Digamos que você chegue na faculdade um pouco cedo e encontre um francês que você conhece, e ele está conversando com alguém que você não conhece, bem em frente da sala em que vocês três terão aula. O conhecido irá provavelmente te dizer oi, perguntar como vai, virar as costas e continuar conversando com a outra pessoa. É uma situação muito constrangedora, porque você fica ali do lado feito uma porta, se sentindo super ignorado. Eles não te apresentam nem te fazem parte da conversa. No começo isso me chocou muito e eu achava que meus colegas de classe eram mal educados, ou não gostavam de mim. Conversando com outros brasileiros, percebi que todo mundo já passou por isso e então eu acho que dá pra dizer que é o jeito dos franceses mesmo e que não é nada pessoal. Agora eu já não dou bola e simplesmente coloco os fones de ouvido, porque na maioria das vezes é pior tentar participar da conversa. Isso é outra coisa muito peculiar: eles não conseguem conversar em grupo. Mais uma vez, não me refiro a ambientes de festa, mas na faculdade, no metrô, nos ensaios do coral… Eles mantém os olhos fixos em apenas um interlocutor, e além disso, as interrupções não são normais como para os brasileiros. Ou seja, se eu quero conversar, procuro alguém que esteja sozinho e inicio uma conversa nova, porque tentar entrar na conversa dos outros é missão (quase) impossível.  Por isso é muito fácil desistir de fazer amizade com os franceses e mais difícil ainda se sentir enturmado. Porém, isso não quer dizer que eles não queiram sua amizade. Eu gostaria que alguém tivesse me dito isso antes de eu chegar aqui, porque então talvez eu não tivesse me sentido tão excluída no começo. Na realidade, eu desisti de me enturmar com as pessoas da faculdade justamente por causa disso e agora eu acho que se eu soubesse dessas características teria sido mais fácil.

Outro dia continuo com outros comentários. Quem estiver curioso por algum em especial, pode pedir!

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Sobre estudar uma língua estrangeira

12 abr

Uma das desculpas mais esfarrapadas que já ouvi para alguém abandonar os estudas da língua francesa é de que a relação entre a fala e a escrita não faz sentido. Digo que essa  é uma desculpa “esfarrapada” não por discordar dessa constatação, mas sim porque, afinal de contas, essa não é uma exclusividade do francês.

Quem começa a estudar o idioma francês vai logo de cara perceber que é necessário um certo tempo para se acostumar com a escrita dos sons.  O exemplo mais clássico é a palavra “beaucoup”, que se pronuncia apenas “bocú”. Além disso, os acentos são um eterno mistério e a memória nem sempre ajuda, então escrever um texto longo em francês sem um bom corretor ortográfico beira o impossível. Para mim, a parte que mais causa problemas, apesar de não ser uma coisa difícil, é que as palavras no plural levam “s” na escrita mas não na fala, e por causa disso acabo escrevendo como se fosse no singular, o que é um erro muito elementar.

Se você se deparar com  isso e achar tudo muito chato, tedioso, feio, inútil ou seja lá o que for, talvez seja mesmo melhor partir pra outra. Nem todos acreditam nisso, mas eu acho difícil aprender qualquer coisa que a gente menospreze. Me parece que o mais importante é estar motivado, e não simplesmente o nível de dificuldade do que você está estudando. Eu gostava muito de estudar alemão justamente porque achava difícil. Fazia todas as atividades com muito prazer e estudava além do que era pedido. Já o francês nunca foi uma grande dificuldade para mim, então nunca estudei de verdade, porque não parecia necessário e isso me desmotivou muito em um certo período da aprendizagem, além de me causar problemas hoje em dia: o clássico “correndo atrás do tempo perdido”.

Porém, é preciso lembrar que todos os idiomas têm suas chatices, e se você for desistir por causa da primeira dificuldade encontrada, jamais seguirá em frente com nenhum deles. O exemplo que dei sobre o aspecto caótico do francês, por exemplo, soa absurdo vindo de uma pessoa que já domina a língua inglesa, que também tem suas maluquices na transposição dos sons para a escrita, sem contar o próprio português.

No momento, estou muito empolgada para aprender espanhol, que supostamente seria bastante fácil, mas por outro lado estou curiosa para ver na prática como se lida com a quantidade enorme de variações entre os países. Quando vejo esse vídeo, por exemplo, não sei se me animo ainda mais ou se sento e choro:

Enfim, motivos para começar ou deixar de estudar um idioma são muitos. Se alguém quiser compartilhar os seus, fiquem a vontade.

O que aprendi sobre vinhos

2 abr

Não muita coisa, mas considerando que eu não gostava nem um pouco de vinho antes a evolução já foi grande. Agora eu sei que gosto mais de rosé porque afinal é mais suave. Mas a única coisa que importa é o que eu aprendi hoje. Então, crianças, prestem atenção:

Derrubei vinho na roupa! E agora, manchou?!?

É muito simples: coloque sal na área em que o vinho caiu e deixe ali por uma boa meia hora. Problema resolvido! O sal puxa todo o vinho do tecido.

E agora você sabe que sal serve pra alguma coisa além de assassinar lesmas. O que, ninguém sabia disso? Puxa.

A função “temperar comida” continua em vigor.