Arquivo | março, 2014

Saga ruiva 2 – Alergia e Mix

17 mar

Contrariando minhas expectativas, após a descoloração com soap cap que fiz e contei aqui, as coisas foram até que bem simples! Algumas chatices aconteceram, mas foi tudo fácil de resolver e nada me irritou tanto quanto no começo, já que o cabelo não estava mais horrível. Vamos continuar de onde parei:

O soap cap deixou o cabelo com uma cor bem satisfatória. Não foi necessariamente o que eu esperava, mas a verdade é que eu sabia que não conseguiria um tom exato e específico (muito difícil!) e por isso estava pronta pra qualquer coisa. Por sorte, acabei gostando bastante da cor. Poderia até ficar um tempo sem tingir novamente, mas tive a impressão de que a descoloração abriu demais as escamas, deixando o cabelo ressecado e com cara de mal cuidado. Por isso, decidi comprar uma tinta e selecionei a Majirel 7.4, por ser mais barata que a Keune, ser fácil de encontrar e ter resultados lindos em várias pessoas.

Com minhas experiências anteriores, já sabia que minha raiz abre fácil demais, então usei ox 30 no comprimento e de 20 na raíz. O problema foi que não encontrei oxigenada da Loreal para comprar e acabei escolhendo da Yamá, pois já conhecia a marca. Misturei dois terços de um tubo de Majirel com a oxigenada de 30 e assim que iniciei a aplicação comecei a sentir uma coceira na pele. Continuei mesmo assim, e misturei o último terço da tinta com a ox de 20, para aplicar na raiz. A coceira continuava mas achei melhor continuar mesmo assim,  até que cheguei na parte de cima da cabeça e não pude suportar a ardência nos olhos. Consegui deixar a tinta agir por menos de 10 minutos (fui bem insistente) e fui para o chuveiro lavar os cabelos. O resultado, na verdade, foi bem bom: a cor ficou praticamente a mesma que estava só com o soap e com cara de mais saudável. O único problema foi que a tinta não teve tempo de reagir na parte de cima e a raiz continuou castanha, pois houve um certo intervalo de tempo entre todos esses procedimentos, dando tempo da raiz aparecer. #Chateada

No dia seguinte, fui até a loja de cosméticos em que tinha comprado a tinta e contei o ocorrido. Para igualar a raiz, me indicaram um tonalizante da Alfaparf, por ser mais suave e poder até ser usado por grávidas e pessoas que fazem tratamento de quimioterapia, segundo a vendedora. Comprei a 7.0, pois era o que tinha, com sua emulsão reveladora, e misturei com o banho de brilho Cobre da Keraton, que já tinha em casa, dando assim o tom acobreado. Surpreendentemente, deu certo! Continuei com coceira no corpo todo por umas duas semanas, mas estava com o cabelo bonito, então tudo bem! hahaha

Depois disso, decidi que bastava retocar a raiz. Claro, fiquei tentada a tingir o cabelo inteiro no mês seguinte, mas acabei me convencendo que não era necessário, pois danificaria muito o fio e acumularia tinta, causando escurecimento. Devido à alergia, fiquei bem preocupada, pois achei que a culpada poderia ter sido a tinta Majirel, afina, eu já tinha utilizado oxigenada da Yamá antes e nunca tive problemas. Estava feliz com a cor e não queria ter que mudar novamente de tinta e correr o risco de estragar o que tinha conseguido. Como minha mãe também pinta o cabelo, ela comprou uma Majirel do tom dela e eu fiz a aplicação, dessa vez com oxigenada da Loreal também e não tive problema nenhum. Então, decidi arricar e no mês seguinte comprei novamente a Majirel 7.4 e apliquei 1/3 do tubo na minha raiz com ox de 20 da Loreal. Por sorte, nada de alergia! 

O problema dessa vez foi que, mesmo com a oxigenada mais baixa, de 20 volumes, e o tempo de pausa curto (cerca de 15 minutos), a raíz ficou mais clara que o comprimento. Não foi nada demais e, na verdade, mal se notava. Mas eu podia ver que a raiz tinha um tom muito mais dourado, e bem bonito, sendo que o resto do cabelo puxava muito mais pro laranja e pro vermelho, dependendo da iluminação. Minha explicação pra isso é que esse tom da Majirel tem muito dourado na composição, apesar de não ter reflexo .3 em seu nome. É por isso que em muitas pessoas ela desbota pro loiro facilmente. Uns amam, outros odeiam. Esse é um pouco o problema das tinturas: cada uma tem sua fórmula e as numerações servem como base mas não representam necessariamente a realidade. Bom, meu fio natural também tem reflexos dourados e por isso acabou abrindo pra um tom de ruivo muito mais claro, puxando pro loiro e sem nada de laranja nem de vermelho. Ou seja, no meu fio virgem, essa tinta abre quase pra um strawberry blond. Já o comprimento, que já foi tingido de preto e vermelho, a tinta reagiu de outra forma, mesmo após as muitas decapagens.

Eu achei o tom da raiz bem lindo, mas com tempo e os outros retoques, se notaria mais a diferença com o comprimento e eu não estava nem um pouco disposta a continuar tentando clarear meu tom.  Era evidente que o reflexo que me faltava era o vermelho, pois o meu comprimento por vezes mostrava essa cor, e por outras refletia laranja, sobre tudo ao sol. O laranja se consegue justamente com a junção de reflexos dourados com vermelhos, por isso supus que um mix 0.6 (vermelho) me bastaria. Então, quando chegou a hora de retocar mais uma vez, comprei o mix da Wella e adicionei uma quantidade minúscula à minha mistura de 1/3 de Majirel com cerca de 40 ml de ox 20. Esses mix são fortíssimos e é necessário sempre ter muito cuidado com eles. Eu coloquei mais ou menos 1,5 cm, mas fiz isso no chute. O resultado foi perfeito! O reflexo deu super certo com o comprimento.

Desde que descobri que precisava do mix, retoquei a raiz 3 vezes e não mexi no comprimento. Os resultados tem sido super satisfatórios todas as vezes. Aí eu fico pensando, será que um cabeleireiro iria se tocar disso? Eu acho que só se for algum especialista em ruivo acobreado mesmo. O fato é que se eu fosse num profissional e saísse com a raiz mais clara após utilizar uma ox mais baixa que no comprimento com a mesma tinta, eu iria pensar simplesmente que não tinha solução. Iria achar que meu cabelo é louco assim mesmo. Como eu mesma faço tudo, acabo conhecendo melhor meu próprio fio. Isso não significa que tudo sempre dá certo. Pelo contrário, como se vê, muita coisa deu errado. Mas com o tempo você vai aprendendo a encontrar as soluções mais adequadas para você, e elas quase nunca são as mesmas para uma outra pessoa. Basta ter paciência de pesquisar bastante ao invés de sair fazendo tudo na louca.

eu no parqueLaranja no sol de Caracas, cara de boba após tomar sorvete de maracujá 

Venezuela for dummies – o que você precisa saber antes de viajar

16 mar

Sei que a Venezuela não é exatamente o destino número 1 na lista de desejos da maioria das pessoas. Na verdade, é mais provável que ela não figure sequer no top 20. Isso é uma lástima, já que o país tem atrações lindíssimas, com grande destaque para suas praias caribenhas, o monte Roraima e o Salto Ángel, a catarata mais alta do mundo. Além disso, é possível encontrar passeios para todos os gostos, sendo possível sair da praia na lha de Los Roques e ir para Mérida aproveitar a neve e a vista dos Andes.

Salto Ángel

Apesar de poucos conhecerem as razões para conhecer a Venezuela, muitos estão conscientes dos motivos pelos quais não vir para cá, sendo a violência, sem dúvida, o maior entre eles. Obviamente, é preciso estar consciente e bem preparado. É comum nos sentirmos relaxados durante viagens, esquecendo de tomar cuidado dos nossos pertences, principalmente em locais muito turísticos, quando estamos entretidos em tirar fotos. É por isso que muitos são roubados em viagens à Europa, mesmo ela sendo mais segura que o Brasil. No caso de países com alto índice de criminalidade então, a atenção deve estar sempre redobrada.

Isso, porém, não é nenhuma exclusividade daqui. A coisa sobre a qual eu considero mais importante saber e que é, esta sim, uma peculiaridade venezuelana, é o Câmbio negro. 

E o que é isso? 

O governo venezuelano tem controle das divisas e, por isso, não se pode comprar moedas estrangeiras a qualquer momento, nem em quantidade livre. Tanto para compras online quanto para viagens internacionais, existem sistemas de controle e de autorização para compra de outras moedas. O valor pago pelos venezuelanos através desse sistema é bastante justo – nesse momento, o dólar está cerca de 6 bolívares, sendo que em reais é cerca de 3 –  porém, devido ao limite de compra (nem um pouco democrático, diga-se de passagem), o que acontece é que existe um mercado paralelo de compra e venda. Como o bolívar não é uma moeda estável, o preço do dólar tende a estar sempre subindo e, por isso, os venezuelanos são obcecados por ter dólares e guardá-los para quando precisar.

dólares, dólares

E o que isso significa para um turista em potencial? 

Significa que seu dinheiro (dólares ou euros – ninguém se interessa em ter reais) se multiplicará e multiplicará de acordo com o mercado paralelo. No caso, um dólar agora vale uns 80 bolívares, enquanto um euro vale 110. É claro que para nós, que ganhamos em reais, o lucro não é tão grande, mas ainda assim acaba custando menos que uma viagem dentro do Brasil. Há pacotes para Margarita, por exemplo, que incluem ida e volta de Caracas, hospedagem com comida e bebidas à vontade por menos de 1000 bolívares o dia, ou seja, menos de 40 reais.

Parece ótimo!!! Vamos então ver quais são os contras:

Como trocar meus dólares no mercado paralelo? 

Me parece no mínimo estranho sair perguntando por aí  “E aí, quer comprar uns dólares?!?”, mas é assim mesmo. Em qualquer lugar se encontra cambistas. O problema é que pode ser que você acabe vendendo sem saber o valor exato do bolívar naquele momento, e saia no prejuízo. Além do risco de mostrar todo seu dinheiro assim para um desconhecido, num país com taxas alarmantes de criminalidade. Por isso,  o melhor, para quem pode, é já ter seus contatos prévios – do tipo “o primo do amigo do meu vizinho conhece alguém” – e conferir os preços no dolartoday.com  Quem não tem conhecidos terá que trocar com cambistas mesmo, e torcer para não esbarrar em nenhum mal intencionado.

Posso usar cartões de crédito ou travel cards? 

Em princípio sim, mas na verdade, não. Se você usar algum cartão, estará necessariamente pagando pelo câmbio oficial, e seu prejuízo será enorme. Como dito anteriormente, oficialmente 1 dólar é apenas uns 6 bolívares e aí, meu amigo, você será pobre, bem pobre, pois as coisas aqui são caras (40 bolívares um pão, 300 uma garrafa de rum). Mas, de qualquer forma, até onde me consta, os cartões internacionais simplesmente não funcionam direito, e eu imagino que isso se deva ao controle de compra e venda feito pelo governo, que impede o câmbio automático da sua moeda para bolívares. Então, é necessário trazer todo o dinheiro em cash, o que é obviamente péssimo e muito perigoso.

E como saber quanto dinheiro trocar? 

Isso varia do estilo da sua viagem mas o certo é que não se deve trocar todo seu dinheiro já no primeiro momento, pois se sobrar, será prejuízo. Ou não, você sai gastando mesmo, ostentando e agregando valor, afinal:

Eu sou rica! Rica!

A segunda informação, ou conselho, mais relevante para quem vem à Venezuela é Tome cuidado com os taxistas. Isso não significa apenas que eles irão te dar informações erradas, para que você pense que não conseguirá chegar à pé a um determinado local. O que acontece é que aqui há os táxis do bem e os táxis do mal, vamos dizer assim.

Whaaaaaaat?

É sabido de todos os venezuelanos que não se entra em qualquer táxi. Eu sinceramente não quero nem imaginar o porquê. Não gosto de imaginar coisas ruins e me limito a apenas acreditar que não se entra em qualquer táxi. É necessário sempre chamar uma empresa por telefone e esperar que te busquem. A informação sobre quais empresas ligar pode ser passada aos turistas nos hotéis. No caso do aeroporto, a coisa é ainda mais bizarra: existem os táxis oficiais – os do bem – e os extra oficiais, que são os do mal. Há vários relatos (como este) que contam que taxistas não licenciados frequentemente colocam os clientes para fora do caro em movimento e assim roubam toda sua bagagem, ou levam os clientes até o local onde se encontram os ladrões de verdade, e aí as chances de haver armas de fogo são muitas. O mais esquisito é que os motoristas não autorizados tem acesso livre ao salão de desembarque, sendo os primeiros a abordar aqueles que acabam de chegar, quase sempre desinformados. Isso aconteceu comigo, pois tive que esperar cerca de 5 minutos pelo motorista encarregado (que veio segurando uma placa com o nome do meu local de trabalho) e isso foi tempo suficiente para eu ter que me livrar de dois taxistas, que insistiam para que eu fosse com eles. Imagino que qualquer pessoa desinformada iria supor simplesmente que se trata de taxistas normais, e que esse tipo de abordagem é comum por aqui. Porém, os taxistas “de verdade”, aqueles que são licenciados, esperam em fila na parte de fora do aeroporto. É lá que todo turista deve ir. Para informações mais específicas sobre isso, ver o link logo acima.

Nas ruas, é também comum essa abordagem de taxistas. Já me aconteceu de estar esperando num ponto de ônibus, novamente por um período muito curto de tempo (menos de 10 minutos), e ser abordada por vários motoristas, que são bastante insistentes, e isso é bem chato. Além disso, a situação dos carros aqui é trágica. Sério. Não tem nenhum tipo de uniformização, nem de modelo nem de cor, e geralmente eles não tem cinto de segurança nos bancos traseiros. O que mais se vê são carros no estado de lata velha mesmo. A velocidade com que dirigem é assustadora, além do trânsito por si só ser caótico. E isso eu estou falando dos táxis do bem. Então, pegar um táxi aqui, pelo menos em Caracas, é sempre uma emoção.

Foto que representa bem a realidade da coisa.

E pra fechar com chave de ouro o assunto, simplesmente não existe taxímetro, então você tem que negociar o preço até seu destino final antes de embarcar. O sotaque estrangeiro deve ser uma grande razão para uma inflação súbita do valor, eu imagino.

É isso.

Contradições

9 mar

Estive pensando nesses últimos dias sobre como eu sinto que não sinto o que devia sentir. ???????????????????????

Isso, é claro, é ridículo. Como se fossemos assim tão previsíveis.

Explico.

Estando em Caracas, Venezuela, ouço todos os dias que sou louca. Algumas vezes até parece elogio. Olha aí que loucura corajosa. A maior parte, porém, é uma crítica óbvia. Que cê tem na cabeça? Você sabe o que é que tá acontecendo aqui? Alguns parecem se ofender com o fato de que uma pessoa possa ter deliberadamente escolhido estar aqui. Eu os entendo, mas não sei se me entendem. Talvez prefiram simplesmente não pensar muito a respeito e só repetir que sou louca.

Isso não significa que as pessoas me tratem mal. Nem um pouco. Algumas vezes, as atitudes soam um pouco agressivas, como se de alguma forma eu fosse culpada pelos problemas da Venezuela e devesse me envergonhar, ou algo assim. Mas já aprendi a entender esse tipo de reação – acho que estava preparada para isso antes mesmo de chegar. Além do mais, essas reações talvez nem existam de verdade e sejam só um dos reflexos da minha contradição interna que me faz pensar que eu não deveria estar feliz e que, já que estou, sou mesmo louca.

Afinal, todos adoram jogar na minha cara que nada disso faz o menor sentido. A Venezuela está cheia de problemas. Eu não sou professora de espanhol. Tampouco sou formada professora de português. Aliás, eu ainda nem me formei. Aqui eu não vou acumular dinheiro nenhum. Aqui eu mal tenho a possibilidade de comprar insira aqui o produto de sua preferência. E a gente fazendo graça da inflação do tomate ano passado né?  E você ainda por cima veio bem nessa época de manifestações!!!!!! Assim, como se eu pudesse ter adivinhado o início exato da saída do povo às ruas. Já que, obviamente, eu tenho poderes telepáticos. Fiquem ligados: semana que vem, post especial com a data em que tudo isso vai acabar!!! URRUL!

Ok, pessoas. Por favor, pessoas. 

Não tenho dúvidas de que isso é muito estranho. Já disse, eu mesma não entendo direito. Mas, de alguma forma, me sinto feliz e confortável. Acolhida. Me sinto em casa. E eu acho esse sentimento de calma questionável. Como posso me sentir assim? Como posso não ter medo? Isso não é injusto? Não estaria eu me aproveitando da desgraça alheia para benefício próprio? Como posso seguir um dia-a-dia feliz quando os outros não compartilham desse sentimento? E, dada minha linda inclinação ao trágico, não deveria estar me afogando num mar de arrependimento e tristeza?

Perguntas que parecem me fazer com olhares mas que, muito mais provável, são questionamentos apenas meus.

Por essa razão, não tenho escrito muito sobre como as coisas são aqui. Tenho vontade de contar sobre o cotidiano, sobre a cidade, a comida, as pessoas. Tenho vontade de fotografar as belas árvores e suas flores e gostaria de ser capaz de capturar a secura do ar. Parece que tudo queima. Mas a situação das pessoas com quem convivo aqui acaba me fazendo me sentir, sim, culpada. E acabo sentindo que posso sim ser feliz – aproveita enquanto dá! – mas que talvez devesse manter isso dentro de mim, para não ofender ninguém.

Faz sentido?

Não.

Mas tudo bem.

É isso.