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Coisas estranhas da Venezuela

7 ago

Viver em outro país é como fazer um tour numa savana: você observa o comportamento dos animais, digo, das pessoas, em seu habitat natural, é atingido por eles em alguns momentos, como quando uma zebra se aproxima do seu jipe e te lambe, mas no fim tudo bem. Você volta pro seu hotel e fica com fotos incríveis para colocar no seu instagram e algumas boas histórias pra contar.

Deixo aqui uma pequena lista de coisas que me chamam a atenção observando o dia-a-dia da Venezuela.

1- O Toddy que não acompanhou a evolução da engenharia de alimentos

Uma ótima maneira de trazer a infância de volta, afinal: relembrar é viver! Por aqui, o Toddy continua igual ao dos anos 90 e forma muitas pelotas de chocolate, não sendo capaz nem de mudar muito a cor do leite. Obviamente, dá pra dissolvê-lo bem se o leite estiver quente, mas quem quer leitE quentE em dias de 30°C?

10570489_10202617107404021_30146998751437378_nResultado da mistura feita sem aplicar nenhuma técnica de infância, como colocar primeiro o chocolate e ir adicionando o leite aos poucos, enquanto mexe. Por motivos científicos. 

 Já que leite quente dói no dente, a opção mais popular por aqui é bater a mistura no liquidificador, o que para mim entra na categoria “trabalho excessivo e absurdo”, mas que aqui é considerado nada mais que normal, o que me leva ao segundo ponto:

2- Venezuelanos não têm preguiça na cozinha

Não sei você, mas para mim, usar o liquidificador toda vez que tomo um toddy está além das minhas capacidades. Ok, eu sei, faz espuminha, fica mais gostoso, mas mesmo assim!  Já aqui, isso parece ser a regra e todos ficam felizes com isso. Porém, o que eu entendo ainda menos é a energia dispensada à preparação do café da manhã.  Quer dizer, na minha família, nossa vontade de fazer qualquer coisa de manhã é tão pequena que preferimos comprar pão na noite anterior e comer pão amanhecido no café. Café coado nunca foi visto, porque isso é trabalhoso demais, então dale nescafé! Além de pão, podemos ter também coisas já prontas ou sem necessidade de preparação, como frutas, cereais e bolos preparados anteriormente, ou comprados prontos mesmo, oras! Nos raríssimos dias – sempre feriados, jamais dias úteis – em que minha mãe acorda inspirada e faz ovos mexidos eu pergunto: Quem é você e o que você fez com minha mãe??!?? Além de achar super estranho, confesso que acho bem desnecessário, afinal, comer ovo de manhã é um exagero.

Mas não aqui na Venezuela. O café da manhã mais tradicional é a arepa, sempre preparada na hora. É verdade que a preparação é extremamente simples: misturar a farinha de milho (harina pan) com água e sal, preparar o formato e colocar em uma frigideira untada com óleo. Simples, fácil e até que bem rápido, mas o fogo tem que estar baixo para conseguir assar a parte de dentro sem queimar a parte de fora, e isso vai te levar pelo menos uns 15 minutos para preparar arepa para no máximo duas pessoas. Eu sempre tenho a impressão de que de manhã cedo o tempo parece passar muito mais lentamente, então 15 minutos passam pela minha cabeça como se fossem 30. Ou seja, são quinze minutos que parecem trinta  em que você poderia estar dormindo mais na sua caminha! Ainda pior se você estiver preparando comida para uma família maior, aí o choro é livre.

Olha, se eu tiver que escolher entre comer arepa com 15 minutos a menos de sono ou então comer um pão com manteiga com 15 minutos de sono a mais, escolho a última opção sem pestanejar.

Muitos minutos de sono perdidos num prato só 

Nas vezes em que viajei por aqui com famílias venezuelanas, morri de tédio e sono só vendo eles prepararem o café da manhã, imagina se teria força para fazê-lo! Afinal, não só de arepas se faz um desayuno: tem que passar o café, esquentar o leite, fazer um suco de frutas natural, ou até mesmo dois sucos diferentes, de acordo com a preferência dos familiares, colocar as mil opções de molho na mesa, queijos, presuntos, tudo em variedade. Além disso, venezuelanos adoram ovo de manhã. Só que não basta ser apenas um ovo mexido, tem que ser o tal do “Perico”, que é ovo mexido com muita cebola e tomate, que você obviamente tem que picar, e olha… começar o dia já chorando por causa de uma cebola é demais para mim.

3- A impossibilidade de fazer ligações a cobrar

Saindo do tema “comida” e falando de uma coisa que efetivamente me incomoda, aqui não se poder fazer ligações a cobrar. Não que eu queira ficar ligando para as pessoas sem pagar, até porque detesto falar no telefone. Mas sempre tem aquele momento em que você precisa e muito falar com alguém e não tem crédito. Em geral, isso acontece em viagens. Você está em um povoado, num domingo, onde não existe a menor possibilidade de comprar mais crédito e simplesmente não consegue ligar para seus companheiros de viagem, ou para o seu hotel, ou para o amigo que você pretende visitar aí. Sem crédito você também não tem internet e wifi liberada já nem é tão comum em Caracas, imagina em pequenos povoados.

Até imagino que seja assim em muitos outros países e nem lembro como era na França, mas continuo achando que isso deveria mudar. Aliás, apoio que a revolução traga internet gratuita para todos em todos os locais AGORA!

4- Se dirigir a todas as pessoas com palavras carinhosas 

Já tinha comentado num post anterior sobre o costume que muitas pessoas aqui tem de chamar os outros de “mami” e “papi”. Mas a coisa vai muito além, como termos como “mi amor” , “mi bella/o” sendo usados sem nenhum critério de intimidade, e o que na minha opinião é mais impressionante de todos: MI REINA.

Sim, minha rainha.

Minha reação interna sempre que ouço isso

O motivo pelo qual eu acho isso muito estranho e cômico é bem simples: eu sou de Curitiba. Já pensou você na fila do Mercadorama, plenas 18 horas, se dirigindo à trabalhadora do caixa assim : “Minha rainha, dá pra apurar? ”  ??????????????????????????????????????

Fica a dica de um teste sociológico pra quem quiser.

 

É isso

 

Viajar = Planejar?

29 jul

Para falar bem a verdade, eu gosto de coisas planejadas. Não consigo evitar ficar ansiosa quando sou obrigada a fazer alguma coisa imediatamente, sem estar preparada antes. Em geral, para mim é uma dificuldade aceitar convites de última hora, do tipo “vamos em tal lugar daqui há uma hora”. Fico nervosa e tenho sempre vontade de dizer não. Confesso que acho meio absurda a ideia de abandonar meus planos de não fazer nada, o que é uma bobeira de minha parte, eu sei. Já há algum tempo tenho conseguido superar um pouco isso, mas volta e meia ainda acabo ofendendo alguém por simplesmente não ser capaz de aceitar convites assim.  De qualquer forma, no meu cotidiano, me sinto muito mais feliz quando sei que amanhã farei isso, que dia tal farei aquilo, e me preparo psicologicamente antes.

 Relax! Take it easy!

Porém, isso não se aplica a viagens. Sinceramente, imagino que seria enlouquecedor tentar viajar se fosse para se sentir frustrado com as oportunidades que aparecem no caminho. Afinal, aproveitá-las é exatamente o bacana de viajar!

A primeira viagem que fiz na Europa foi a Paris. Minha intenção inicial era planejar o que fazer em cada dia, com o intuito de aproveitar ao máximo o tempo. Deu certo? Nem um pouco! Fiquei frustrada? Confesso que lamentei não ter buscado informações com antecedência sobre as catacumbas, que acabei não podendo ver devido à necessidade de uma reserva. Mas tirando essa pequena lástima, tudo bem! Afinal, nenhum momento é realmente perdido!  Por exemplo, acabei visitando o bairro de Montmartre dois dias diferentes, o que é uma perda de tempo, por um lado. Por outro, é divertido andar pela cidade e ter um pouco a sensação de já conhecê-la. Quero dizer, é maravilhoso andar por uma rua pela primeira vez, mas também é legar optar por seguir tal caminho porque você já sabe que ele te levará novamente a um lugar que você gostou.

E a eficiencia???

Não sou muito fã de viagens rápidas com excesso de lugares a serem vistos. Não tenho nenhum interesse em sair de um ponto turístico diretamente a outro sem aproveitar o caminho entre eles.  Por isso, não sinto a necessidade de saber exatamente qual caminho tomar para que tudo seja 100% eficiente. Além disso, logo nessa primeira viagem percebi que não há problema nenhum em deixar algumas coisas para trás. É… talvez eu nunca mais volte para aquela cidade, mas se um dia voltar, além de poder rever muitas coisas, terei outras tantas novas para conhecer. Em Paris, por exemplo, não subi a torre Eiffel. Imagino que para muitos isso seja o mesmo que simplesmente não visitar Paris, mas e daí? Não achei que compensaria as horas de espera na fila. Não fazia meu coração bater mais forte, e fiquei bem feliz sentada na grama comendo um pacote inteiro de pains au chocolat. Isso sim faz o coração disparar!!!! De diabetes!!!!Mas tudo bem. O que importa é que naquele momento achei mais agradável deixar o plano de lado e aproveitar o que tinha vontade de fazer, por menos proveitoso que aquilo pudesse parecer para alguns.

Em outras viagens, encontrei pessoas com estilos completamente diferentes. Algumas que já conheciam bem o caminho e estavam prontas para ajudar a escolher o que e como fazer, pessoas que não planejam nada e também pessoas que planejam absolutamente tudo. Acompanhando essas pessoas, percebi que não planejar nada não é sempre totalmente positivo, pois você acaba tendo dificuldades que poderia facilmente evitar. Por outro lado, ficou evidente para mim que aqueles que planejam muito se frustram facilmente, simplesmente porque as possibilidade das coisas saírem de acordo com o script são muito pequenas. Ou seja, acho legal ser uma pessoa mais “viva” durante uma viagem e não ficar todo o tempo esperando que as coisas simplesmente aconteçam, entretanto, ficar obcecado com a eficiência de uma viagem é uma droga.

Na última viagem que fiz, estava acompanhada por duas pessoas que eram exatamente esses dois opostos. Por um lado, quase não conseguímos passagens de regresso, devido às escolhas do indivíduo X, que era basicamente que organizou a viagem e não é do tipo que se previne. Isso só foi evitado devido à obsessão do indivíduo Y em ter tudo previamente pronto. Contudo, durante muitos dias, Y simplesmente não parecia estar desfrutando, fazia constantemente comentários negativos e não tinha interesse em curtir nenhum dos momentos que se apresentavam para nós, aparentemente porque eles não tinham sido planejados. Por isso, apesar de ser evidente para mim que alguns perrengues podem ser evitados com organização, está também claro como petróleo (como dizem aqui na Venezuela) que é impossível ser feliz viajando se você não é capaz de abrir mão de seus planos inciais.

Bem óbvio, não?  É bem possível que a resposta para tudo na vida seja EQUILÍBRIO, o que às vezes é bem difícil de conseguir. Considero que é super válido se organizar bem em relação às suas despesas, afinal dinheiro ainda não está crescendo em árvore, e por mais que seja sempre possível contar com a ajuda de almas caridosas, não se pode simplesmente sair contando com a existência delas. Também entendo que haja coisas que você simplesmente deseje muito ver, e que haja frustração caso não consiga fazer tudo o que queria. Mas o mais importante é saber aproveitar as oportunidades que aparecem ao invés de lamentar as que foram perdidas. Como dizem, a felicidade é como uma borboleta… hehehehe

É isso.

Aprender espanhol na Venezuela

22 abr

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Como todos sabem, a língua espanhola varia muito em cada região. Quando se escolhe um país para ir estudar o idioma, também se está escolhendo uma de suas variações. Isso tudo sem levar em conta as variações dentro de cada país, e nem vamos pensar em todas as variantes existentes ! Como já diz a canção:

Que difícil es hablar el español!  Si lo aprendes, no te muevas de región! 

E como é que as pessoas falam aqui?

Chévere. Aqui as coisas não são boas, são chévere. Hola, como estás? Chévere. Segundo a Wikipedia, a palavra veio de um idioma da Nigéria e foi introduzida em Cuba, sendo difundida no mundo latino através das canções cubanas. Os venezuelanos, porém, tomam o termo como sendo 100% nacional, e é certo que aqui ele é super utilizado cotidianamente há muitos anos. Hoje em dia, já se escuta também na Colômbia e no Peru, e sabe-se lá onde mais. Lembro-me de ter conversado com um cara de Bogotá num vôo Berlin-Lyon e dele descrever tudo na Alemanha como chévere.

Uma coisa que não é exclusiva daqui, mas que eu acho muito bizarra, é a utilização dos termos mami e papi. Eu achava que seria uma coisa mais entre casais (fiz essa dedução pelas músicas do Pitbull, haha) mas as pessoas usam ela no dia a dia para se dirigir a uma outra pessoa. Então, você pode ouvir alguém dizer Cómo estas mami?. Mas me parece que pode haver uma distinção social para o uso dos termos. Muitos me disseram que isso é horrível e que não usam jamais. Achei também curioso que ontem mesmo ouvi um frentista dizer a um motorista Dale papi, o que eu achei estranhíssimo, pois até então nunca tinha visto homens se falarem assim. Já quando a palavra é dirigida a crianças, acho que não há tanto preconceito.

Mas, para mim, a característica mais marcante do espanhol venezuelano é a não pronunciação do S. Ou seja, em palavras como hospital, dizem apenas hopital. Caracas é dito quase sempre Caraca. Em outros momentos, além de não pronunciar o S, também se pode produzir um som aspirado em seu lugar. Não vou sair afirmando, mas essa aspiração soa como o CH alemão como em nacht. Ouço isso no meio de palavras como este, mas nunca no fim de palavras. Muitos dizem que isso é coisa de pessoas sem escolarização, mas não é verdade. Todas as classes sociais produzem o mesmo fenômeno, basta ver um pouco de televisão para ver. Porém, existe muita variação pessoal: alguns nunca pronunciam nada, mas a maioria das pessoas produz as duas opções, dependendo da palavra (só não fiz uma descrição linguística disso ainda,para ver qual a lógica por trás. Aliás, nem vou fazer. Hahaha!) Isso acaba sendo uma dificuldade para eles ao aprender outro idioma, já que eles pensam que estão pronunciado o S quando, na verdade,  estão fazendo esse som aspirado, ou som nenhum. Para mim, é também mais difícil aprender palavras novas, além da conjugação dos verbos, já que em algumas situações não está evidente que há um S na escrita. Mas eu acho isso super charmoso e está claro que a queda do S é um fenômeno frequente nos idiomas romance. Venezuela super a frente na evolução do espanhol!  #Prafrentéx Claro que isso não acontece só aqui, mas bom, não conheço os outros lugares, por isso não vou afirmar 🙂

Outra coisa que não sei se é só venezuelana mas que é bem notável é o uso da palavra este como apoio. Ou seja, as pessoa falam a palavra apenas como forma de preencher o tempo que tomam pensando em algo, como nós brasileiros fazemos com e. E, claro, pronunciam apenas ete.

Como eu disse, acho o espanhol daqui bem fofo (particularmente, não gosto muito do som do S – cada um com sua mania) e, se fosse escolher um lugar pra aprender o idioma, seria em na ilha de Margarita. Já pensou, que vida boa?

imagesAssim são as publicidades de turismo do país.

Último dia em Paris: Versailles e os trens do mal

19 abr

Finalmente resolvi contar sobre meu último dia em Paris! Texto escrito em dois momentos: em algum dos muitos dias desocupados em Lyon, e outro agora, direito do interior da Venezuela. Ai como sou ryca e viajada!
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Lyon resolveu ter seu momento curitibano e trouxe muita chuva nessa segunda-feira de outono. As roupas para lavar e as compras a fazer foram deixadas para trás, substituídas por café e bolachas de chocolate. Então, quase um mês depois, finalmente resolvi vir aqui contar sobre o último dia de minha visita a Paris.

Como já disse em outro post, desde o início meus planos para a viagem deram errado. A ideia era visitar o castelo de Versailles na quinta feira, dia de pouco movimento. Foram várias coisas que fizeram com que eu fosse adiando cada vez mais essa viagem, e no final bateu aquele desespero achando que não ia conseguir ir. Mas eu queria muito visitar o castelo, e ficaria indignadíssima se não fosse, então eu fui no último dia, mesmo sabendo que isso poderia atrapalhar minha volta pra casa, que seria de carona, assim como a ida. Sabe quando você sabe que alguma coisa vai dar errado? Então, eu sabia. E é claro que realmente aconteceram alguns imprevistos bizarros!!!

Mas, oras, vamos começar pelo começo, e no começo deu tudo certo. adendo posterior: uau, isso define a vida, não? #Emo

Eu e o Roberto acordamos cedo e fomos pegar o trem. Dentro de Paris, as linhas de metro são muito fáceis de entender, com várias placas e tudo mais, já os RER (trens/metro que circulam por toda a região Ile de France, onde ficam Paris e Versailles) são bem mais confusos e difíceis de entender. Sinceramente não sei o que dizer para ajudar alguém que esteja planejando a ida de Paris a Versailles, por que chegando nas estações vocês não vê placa nenhuma que te ajude, nem informações sobre o trajeto dentro dos trens. Eu segui as dicas que vi nesse blog, que me foram muito úteis. Mas isso não foi suficiente. Pelo que ela diz (e eu também percebi isso depois), tem uma linha que vai direto até a estação final em Versailles. Nós pegamos uma outra, tivemos que descer numa estação minúscula sem nenhuma placa e esperar outro trem sem nem ter certeza se era aquela que tínhamos que pegar. Quando esse outro trem chegou, vimos que era ele mesmo, já que estava cheio de turistas. Mas não sei dizer onde esse trem passa em Paris, muito menos por que nós seguimos todas as placas que indicavam “Château de Versailles” e acabamos pegando um trem que não ia exatamente pra lá. Eu suponho que tenha duas linhas que parem no mesmo lugar, e afinal de contas as duas te levam, de uma forma ou de outra, onde você quer chegar. Só que acho muito ruim não ter informações claras, levando em consideração que Versailles é um destino obrigatório para todo o mar de turistas que está em Paris diariamente. Eu imagino que qualquer francês habituado a viajar de trens entenderia tudo perfeitamente, mas para os turistas a falta de informações claras complica.

Finalmente chegamos à estação de Versailles, depois de meia hora, eu acho. Daí foi muito fácil, é só seguir todos os turistas e em poucos minutos chegamos ao castelo.

O dia estava bem bonito, com sol, apesar do frio. Tinha muitos turistas, naturalmente, mas não achei que estava tão lotado assim. A entrada do castelo é essa aí, que fica na parte de trás. Lá você pode comprar o bilhete de entrada, que não é unificado. A entrada no castelo principal é separada do Domaines de Marie Antoniette. Já o jardim é liberado gratuitamente para todos. Como não tínhamos muito tempo, já que eu precisa pegar minha carona as 17 horas em Paris, escolhemos entrar apenas no castelo principal e visitar os jardins. Não fiquei tão chateada de não ver a outra parte, por que pretendo ir lá de novo durante o verão, quando as fontes estão funcionando – comentário posterior: não o fiz.
Assim como no Louvre, não tive que pagar entrada, apenas apresentei minha declaração de residência fixa e meu passaporte.

Continuação tardia
Lá dentro, as coisas são muito legais. É oferecido gratuitamente um aparelho de áudio com várias explicações. Meus lugares favoritos eram os quartos, mas o famoso salão se espelhos também é maravilhoso, claro. Porém, fiquei um tanto irritada com os grandes grupos de turistas chineses que estavam lá, tirando mil fotos e falando super alto. Mas tudo bem.

Como já era outono, as estátuas dos jardins estavam todas cobertas por panos brancos e as fontes não estavam ligadas. Tudo continuava sendo muito agradável, mas com certeza vale mais a pena ir lá no período entre a primavera e o verão, ou então em pleno inverno, mas aí com uma sensação completamente diferente. De qualquer forma, acho que todos os momentos têm sua beleza, e o meio termo entre sol e frio que vi, com o inicio da preparação para o inverno, foi bem bonito.

Depois de comermos nossos sanduíches, voltamos para Paris. E aí sim a coisa ficou complicada. Pegamos um RER que parava numa estação em que podiamos fazer conexão para voltar para casa. Porém, no meio do caminho, eis que surge uma voz do além e, em baixa qualidade, anuncia que dali em diante não pararia em todas as estações previstas, que apenas uma parada seria feita a seguir e então seguiria direto ao aeroporto Charles de Gaulle. Olha, nunca fui nesse aeroporto, mas sei que é longe demais da conta! O que aconteceu é que estavamos ambos sentados e já mortos de cansaço. A cena poderia ser de filme: a voz fez o anúncio e, absortos em nosso cansaço, nem demos bola. Alguns segundos depois nos olhamos com cara de PUTAIN! CORRE!!! mas aí, minha gente, já era tarde. Então, fica a dica: os trens em Paris podem ser, além de complicados, sentimentais, mudando seu caminho a qualquer hora. Chato, não?

Então, fizemos uma viagem bem maior que o previsto até a tal estação antes do aeroporto, muito emputecidos. Chegando lá, ficamos uns 20 minutos esperando outro trem na direção oposta, com muito medo que aparecesse um fiscal, já que nossos bilhetes não eram válidos para o sentido contrário, mas não podiamos nos dar o luxo de pagar por outro. Até que finalmente chegou o trem e então ok.

Que ok que nada, porque alguém fez o favor de se jogar na frente do trem!!!!!!!!!!!!!!

Foi muito indignante. Suicídio é um tema delicado com qual todos deveríamos ter sensibilidade. Mas dá para perceber a má sorte que estavamos tendo. Passamos duas horas e meia parados.

Depois disso, acabei chegando atrasada até minha carona, que foi compreensiva. Voltamos apertados em 3 na parte de trás de um carro pequeno, com um piá que tinha bafo e outro que se considerava um produto satisfatório (??) do sistema de escolas de Belas Artes francês (??). Chegamos após o previsto em Lyon, não exatamente pelos meus 15 minutos de atraso e sim pelo congestionamento na saída da capital, de forma que já não havia ônibus na cidade.

Quem conhece Lyon sabe que na estação de Perrache há sempre um monte de famílias de ciganos dormindo, ou melhor, morando. Minha dúvida era se eu dormiria na praça ou com esse povo no túnel do tramway, já que minha carona não demonstrou nenhum remorso em me largar lá à uma da madrugada. Bem gente boa!

Mas como existem pessoas boas nesse mundo, a moça que veio esmagada comigo pediu para seu namorado, que a foi buscar, me levar até minha casa. Muito obrigada, moça!

E assim chegou ao fim minha estadia na cidade luz, a capital do amor, e caraca! Devia ter percebido que isso era mau agouro!!! #Brincadeirinha

Contradições

9 mar

Estive pensando nesses últimos dias sobre como eu sinto que não sinto o que devia sentir. ???????????????????????

Isso, é claro, é ridículo. Como se fossemos assim tão previsíveis.

Explico.

Estando em Caracas, Venezuela, ouço todos os dias que sou louca. Algumas vezes até parece elogio. Olha aí que loucura corajosa. A maior parte, porém, é uma crítica óbvia. Que cê tem na cabeça? Você sabe o que é que tá acontecendo aqui? Alguns parecem se ofender com o fato de que uma pessoa possa ter deliberadamente escolhido estar aqui. Eu os entendo, mas não sei se me entendem. Talvez prefiram simplesmente não pensar muito a respeito e só repetir que sou louca.

Isso não significa que as pessoas me tratem mal. Nem um pouco. Algumas vezes, as atitudes soam um pouco agressivas, como se de alguma forma eu fosse culpada pelos problemas da Venezuela e devesse me envergonhar, ou algo assim. Mas já aprendi a entender esse tipo de reação – acho que estava preparada para isso antes mesmo de chegar. Além do mais, essas reações talvez nem existam de verdade e sejam só um dos reflexos da minha contradição interna que me faz pensar que eu não deveria estar feliz e que, já que estou, sou mesmo louca.

Afinal, todos adoram jogar na minha cara que nada disso faz o menor sentido. A Venezuela está cheia de problemas. Eu não sou professora de espanhol. Tampouco sou formada professora de português. Aliás, eu ainda nem me formei. Aqui eu não vou acumular dinheiro nenhum. Aqui eu mal tenho a possibilidade de comprar insira aqui o produto de sua preferência. E a gente fazendo graça da inflação do tomate ano passado né?  E você ainda por cima veio bem nessa época de manifestações!!!!!! Assim, como se eu pudesse ter adivinhado o início exato da saída do povo às ruas. Já que, obviamente, eu tenho poderes telepáticos. Fiquem ligados: semana que vem, post especial com a data em que tudo isso vai acabar!!! URRUL!

Ok, pessoas. Por favor, pessoas. 

Não tenho dúvidas de que isso é muito estranho. Já disse, eu mesma não entendo direito. Mas, de alguma forma, me sinto feliz e confortável. Acolhida. Me sinto em casa. E eu acho esse sentimento de calma questionável. Como posso me sentir assim? Como posso não ter medo? Isso não é injusto? Não estaria eu me aproveitando da desgraça alheia para benefício próprio? Como posso seguir um dia-a-dia feliz quando os outros não compartilham desse sentimento? E, dada minha linda inclinação ao trágico, não deveria estar me afogando num mar de arrependimento e tristeza?

Perguntas que parecem me fazer com olhares mas que, muito mais provável, são questionamentos apenas meus.

Por essa razão, não tenho escrito muito sobre como as coisas são aqui. Tenho vontade de contar sobre o cotidiano, sobre a cidade, a comida, as pessoas. Tenho vontade de fotografar as belas árvores e suas flores e gostaria de ser capaz de capturar a secura do ar. Parece que tudo queima. Mas a situação das pessoas com quem convivo aqui acaba me fazendo me sentir, sim, culpada. E acabo sentindo que posso sim ser feliz – aproveita enquanto dá! – mas que talvez devesse manter isso dentro de mim, para não ofender ninguém.

Faz sentido?

Não.

Mas tudo bem.

É isso.

Sobre ser um reclamão

16 dez

Este foi um dos muitos textos que escrevi aqui no blog mas não publiquei. Se eu fosse publicar tudo o que escrevi teria mil posts, mas acabo achando tudo desnecessário depois que a vontade de desabafar passa. Enfim, aqui vai um texto sobre reclamar ou elogiar o país estrangeiro em que se está vivendo.

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O texto do francês sobre o Brasil realmente deu o que falar. Me mostraram hoje um texto resposta feito por uma brasileira que mora na França, que comenta quase todos os tópicos escritos por Olivier. O tom das suas respostas é bastante amargo, tanto que me passaram o texto mencionando “o ódio no coração” que vai aumentando a cada tópico.  Eu não sei dizer se foi apenas uma tentativa de ser cômica – não funcionou – ou se a moça realmente se sentiu bastante ofendida com os comentários feitos pelo francês.

(texto sobre o qual estou falando http://www.fodecast.com.br/curiosidade/brasileira-que-mora-na-franca-responde-as-observacoes-de-olivier/)

Claro, a primeira crítica a se fazer à lista de Olivier é a enorme generalização feita, definindo o Brasil através do pouco que ele conhece (Belo Horizonte), sem deixar isso claro. Oras, generalizar faz parte, mas seria legal se ele mencionasse na apresentação do seu texto qual é sua base de referência. De qualquer forma, por mais que ele frisasse que seus comentários são feitos baseados na pouca experiência que teve, na cidade X do estado Y, algumas pessoas continuariam a lê-lo como um europeu chato e metido, que se sente dono da razão e de todo mundo, e que não devia nada que ficar se metendo.

Eu o entendo. Por mais que eu tenha rido de boa parte de seus comentários, que me fizeram imediatamente pensar em pontos negativos muitos semelhantes da França, principalmente no que se refere à burocracia. A verdade é que é muito difícil não fazer comparações. Posso dizer sem medo de errar que isso é impossível? Acho que sim. É também muito difícil não ficar saudoso com o próprio país, não soltar um “No Brasil é assim” ou um “Eike vontade de tomar guaraná”…  Mas será que só porque me bateu uma vontade de comer um pão de queijo eu já me tornei uma reclamona? Não pode ser só as bixa se mexendo no meu estrombo? Ou o fato de eu achar baguette um pão muito duro e pouco prático já me torna uma “pessoa que não sabe se adaptar e decide atacar a cultura do outro”?

A impressão que dá é que pouco aceitam as comparações como uma coisa saudável e que nos leva a refletir. O bom senso tá aí pra que a gente não se torne o reclamão da turma, e é bom que a gente use. Mas eu realmente não vejo razões para que a gente ignore toda a quantidade enorme de informação que recebemos ao viver em um país estrangeiro, apenas em nome da… da sei lá o que, da finesse?

Ao mesmo tempo em que comparações não são muito bem vistas aqui no “outro país”, as pessoas do país natal também parecem não gostar muito quando a gente faz alguma comparação. A impressão que fica é sempre do recalque. Neste caso: pare de se achar porque está morando na Europa. No caso anterior: pare de falar do Brasil e aproveite a ryqueza da vida na Europa enquanto pode. Mesmo que você não tenha feito nenhum julgamento de qualidade (melhorXpior) e tenha se limitado a expor as diferenças.

Não tem como negar que muitas vezes a raiva, a solidão, a saudade, fazem com que a gente saia falando horrores do país novo. Assim como o deslumbramento nos faz transformar meros detalhes em maravilhas a serem apreciadas. E daí? Tudo tem seus dois lados, não é?  E é também evidente que mesmo no comentário mais imparcial que se faça, continua havendo predisposições, preconceitos, sentimentos ou mesmo falta de reflexão.  E sim, eu acho que o ideal é sempre buscar questionar suas próprias opiniões, debater, ouvir o outro.  Mas exigir parcialidade “jornalística” (HAHA) e rigor acadêmico em todos os momentos da vida é no mínimo chato.

Enfim! Pelo direito de reclamar, elogiar, comparar, comentar, se indignar (não terminei o texto antes e não vou terminar agora)

Voltar a Curitiba e coisas cinzas – é bom e é ruim, é ruim e é bom.

17 jul

Afinal, até a uva passa.

Cheguei em Curitiba há 3 semanas e não faço ideia de qual seria a melhor palavra a usar para descrever como as coisas estão, como me senti, o que pensei.

É muito curiosa a sensação que tive tanto quanto estava indo para Lyon quanto na volta, como se não estivesse vivendo nada daquilo. Também não sei dizer em que momento essa sensação passou, nem como, e na verdade não estou tão certa de que ela se quer tenha realmente passado em algum momento. Talvez desde o começo eu me sinta da mesma forma.

Para ser sincera, eu imaginava que a volta seria mais difícil. De certa forma, eu estava ansiosa e pronta para terminar a vida quase de brincadeira que estava tendo. Estava sendo muito, muito feliz, mas já estava um pouco cansada da minha falta de produtividade. Como eu não tinha aulas e nem dinheiro para viajar, passei dois meses quase inteiros sem ter o que fazer, o que é obviamente agradável mas se tornou um pouco chato, levando em conta que durante 7 meses eu já não tinha feito muito. Claramente, a responsabilidade pelo certo tédio que sentia é toda minha, que não mexi um dedo para mudar a situação. Pelo contrário, decidi que, oras, não é sempre que se tem a chance de não fazer nada, certo? Me deixei levar, então, por esse nada fazer, que me agradava mas que durou o quanto tinha que durar – até que já não queria mais.

Estava também cansada da constante consciência do fim. Essa consciência- entender que as coisas não são eternas, e nem tem que ser- foi provavelmente o maior aprendizado que tive nesse intercâmbio. Meu posicionamento em relação a muitas coisas mudou por causa disso. Mas os últimos meses em Lyon tiveram, de certa forma, ares de “últimos dias de um condenado”. Claro, estou exagerando, e como sempre as coisas parecem muito piores do que realmente foram. Não foi ruim. Foi maravilhoso. Mas um pouco angustiante.

Era difícil fazer planos, pois eles envolveriam necessariamente o fim daquilo que estava vivendo e não queria perder.

As primeiras semanas aqui foram definitivamente o momento em que todos os medos e confusões explodiram. Esse foi o lado mais difícil e eu confesso que fiquei surpresa. Por que sofrer com algo que já era previsto? Eu já não devia estar pronta? Pois não estava. E assim como eu escolhi me deixar levar pelo ócio, me dei o direito de sofrer tudo o que tinha que sofrer e lamentar todas as minhas dores. Um excelente professor de literatura sempre me vem à mente, nos fazendo ler Freud e nos dizendo que temos que nos dar o tempo do luto.

Ai, quanto xororô, quantas xurumelas!!!!!!

Blábláblá, ó como sofro, ó meu queijo roquefort, ó meu vinho barato e barras de chocolate Milka….

Felizmente, quando nos damos tempo para sentir livremente tudo aquilo que temos que sentir, chega um momento que o sentimento acaba e você precisa de um novo. Com sorte esse novo vai ser bom, e normalmente é e se não for você vira a tia má, solitária e sem coração daquelas histórias. 

slowly unravels

Agora falando de coisas boas, Curitiba está me surpreendendo positivamente. Por algum motivo desconhecido, estou com um sentimento de que as coisas irão melhorar para mim e minha família. As pessoas estão me parecendo bem menos piores do que antes – apesar de que minha curitibanice não permite que eu diga que elas estão “melhores”, haha. As ruas me parecem limpas e os ônibus mais eficientes. Se é realidade ou só positividade da minha parte, não sei. Mas como dizem, recebemos de volta aquilo que damos ao mundo, e eu estou tentando dar sempre o meu melhor.

É isso.

(ainda não tenho coragem de escrever sobre as pessoas que conheci e que amo tanto. Só pra não parecer muito ingrata e insensível.)