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Contradições

9 mar

Estive pensando nesses últimos dias sobre como eu sinto que não sinto o que devia sentir. ???????????????????????

Isso, é claro, é ridículo. Como se fossemos assim tão previsíveis.

Explico.

Estando em Caracas, Venezuela, ouço todos os dias que sou louca. Algumas vezes até parece elogio. Olha aí que loucura corajosa. A maior parte, porém, é uma crítica óbvia. Que cê tem na cabeça? Você sabe o que é que tá acontecendo aqui? Alguns parecem se ofender com o fato de que uma pessoa possa ter deliberadamente escolhido estar aqui. Eu os entendo, mas não sei se me entendem. Talvez prefiram simplesmente não pensar muito a respeito e só repetir que sou louca.

Isso não significa que as pessoas me tratem mal. Nem um pouco. Algumas vezes, as atitudes soam um pouco agressivas, como se de alguma forma eu fosse culpada pelos problemas da Venezuela e devesse me envergonhar, ou algo assim. Mas já aprendi a entender esse tipo de reação – acho que estava preparada para isso antes mesmo de chegar. Além do mais, essas reações talvez nem existam de verdade e sejam só um dos reflexos da minha contradição interna que me faz pensar que eu não deveria estar feliz e que, já que estou, sou mesmo louca.

Afinal, todos adoram jogar na minha cara que nada disso faz o menor sentido. A Venezuela está cheia de problemas. Eu não sou professora de espanhol. Tampouco sou formada professora de português. Aliás, eu ainda nem me formei. Aqui eu não vou acumular dinheiro nenhum. Aqui eu mal tenho a possibilidade de comprar insira aqui o produto de sua preferência. E a gente fazendo graça da inflação do tomate ano passado né?  E você ainda por cima veio bem nessa época de manifestações!!!!!! Assim, como se eu pudesse ter adivinhado o início exato da saída do povo às ruas. Já que, obviamente, eu tenho poderes telepáticos. Fiquem ligados: semana que vem, post especial com a data em que tudo isso vai acabar!!! URRUL!

Ok, pessoas. Por favor, pessoas. 

Não tenho dúvidas de que isso é muito estranho. Já disse, eu mesma não entendo direito. Mas, de alguma forma, me sinto feliz e confortável. Acolhida. Me sinto em casa. E eu acho esse sentimento de calma questionável. Como posso me sentir assim? Como posso não ter medo? Isso não é injusto? Não estaria eu me aproveitando da desgraça alheia para benefício próprio? Como posso seguir um dia-a-dia feliz quando os outros não compartilham desse sentimento? E, dada minha linda inclinação ao trágico, não deveria estar me afogando num mar de arrependimento e tristeza?

Perguntas que parecem me fazer com olhares mas que, muito mais provável, são questionamentos apenas meus.

Por essa razão, não tenho escrito muito sobre como as coisas são aqui. Tenho vontade de contar sobre o cotidiano, sobre a cidade, a comida, as pessoas. Tenho vontade de fotografar as belas árvores e suas flores e gostaria de ser capaz de capturar a secura do ar. Parece que tudo queima. Mas a situação das pessoas com quem convivo aqui acaba me fazendo me sentir, sim, culpada. E acabo sentindo que posso sim ser feliz – aproveita enquanto dá! – mas que talvez devesse manter isso dentro de mim, para não ofender ninguém.

Faz sentido?

Não.

Mas tudo bem.

É isso.

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Eike vontade de

28 set

várias coisas. É fato que quanto mais difícil é ter uma coisa, mais você vai querer. Eu por exemplo não como crepes – o bom e verdadeira crepe de queijo, que vendem no terminal – há uns belos 5 anos. Mas é claro que agora eu fico mortinha de vontade de comer um crepe (do bom e verdadeiro) toda vez que vejo uma barraca de crepes (aquele que na verdade é só uma panqueca) na rua! E isso é tipo, sempre!

Claro que eu sabia que o crepes aqui da França é uma mera panqueca, isso não foi uma surpresa, mas o desejo LOUCO por crepes de terminal realmente me surpreendeu.

O que eu acho interessante é que é bem fácil encontrar por aqui um lugar que venda uma outra gostosura dessas que a gente come na feira: churros. Sim, churros! E olha que o daqui é bem maior que o do Brasil, e ainda vendem numas barracas muito mais bonitas, coloridas e atraentes do que aquelas que a gente tá acostumado, que usam o mesmo óleo por um mês. Mesmo com todos esses atrativos, nunca comi churros aqui. O que demonstra que eu só quero o que eu não posso.

Estou também com muita vontade de ler um livro, qualquer que seja, em português. Não suporto a ideia de ler um livro em qualquer outra língua que seja e é claro que eu não trouxe nem unzinho comigo (carregar peso na mala pra quê?)!  Livro em francês, sai de mim! (inglês tmb não quero)

Enfim…

Cheguei em Lyon

3 set

Estoy aquí, quierendo te.
Cheguei bem e consegui um excelente abrigo. Andei por algumas quadras de Vieux Lyon, que parece mesmo uma coisa de outro mundo. Comprovei que os rios estão lá mesmo, numa cor esverdeada à la piscina em Amélie Poulain. Comi pratos típicos e comprevei que realmente se usa menos sal, mas que a comida fica ainda melhor assim. Provei também que a Coca-Cola não é apenas menos açucarada, mas também tem menos curvas. Gostei da experiência e acho que isso tudo deve mesmo ser lindo, mas será que não dá pra me levar de volta pra casa?

and then i was like whaaaat

25 jun

Coisa mais irritante do que ler blog e perceber que o desgraçado te prende por horas só pq o tal dono escreve bem? To indo fazer intercâmbio daqui 2 meses (whaaaaaaaaaat) e fico lendo blog sobre maternidade, vai entender.

Depois eu tento fazer download de um vídeo do youtube em que um coral qualquer canta a peça que estou estudando mas que estou com preguiça de efetivamente LER e então quero apenas OUVIR E DECORAR. Professora disse que o solo é pra ser cantado por um anjo, mas eu tenho cá a impressão de que a mulher do coral parece mais um robô saido de um episódio de Futurama. Só me resta tentar fazer melhor, do topo da minha prepotência, só que não. – eu falei que canto mal no último post? oi, quê? O fato é que estou há uma hora fazendo esse download, que fica variando entre 1 e 2 horas restantes, mistério.

Versão em alemão: Was ist das denn?

Sobre talentos, esforços e invejas

11 mar

Esforços

Estou quase terminando minha Licenciatura em Letras. Já passei, estou passando e ainda passarei por todas as crises possíveis relativas a isso. No momento, acho que vida deveria se chamar crise.

Isso é uma coisa bacana, pois é claro que uma das perguntas mais encasquetantes da minha infância era “por que xale se chama xale”.

Se não tivesse entrado no curso de Letras, teria feito licenciatura em música na Belas Artes. A decisão me parece mais complicada hoje do que realmente foi naquela época. A verdade é que eu simplesmente não estudei para entrar em Letras. Fiz cursinho, sim. Mas não estudava. Passava os dias estudando música e por um ano eu fui uma moça que entendia muito sobre isso. Não sabia tudo, isso é impossível! Mas tinha um nível de entendimento muito alto. Para mim, quando se “entende” uma coisa, até mesmo seus fios de cabelo possuem o entendimento (e então a coisa entendida se torna praticamente inexplicável, por ser muito íntima). De qualquer forma, não me matriculei em música e praticamente abandonei a música ao entrar na universidade. Sem leitura, sem prática, sem nada.

A verdade é que, quando penso naquele primeiro ano de faculdade, vejo que estava drasticamente abalada e deprimida. Dali em diante, nunca mais tive a mesma prática de piano. Minhas habilidades praticamente deixaram de existir. Como minha memória é fraca, abandonei também todas as informações que tinha sobre história e teoria musical. E assim estou até hoje.

Mesmo assim, nesses 4 anos fiz várias tentativas de retomar a prática. Várias coisas me prejudicaram, mas sei que a única coisa que se precisa para fazer o que se quer é força de vontade. E isso eu só tinha pela metade. Este ano fiz mais uma dessas tentativas e tudo estava indo bem. Não retomei as aulas de piano, pois não tenho o instrumento em casa, nem um teclado e me mudei para bem longe da casa da minha professora, o que me impedia de ir praticar todo dia (por 4 horas) como antigamente. Escolhi a técnica vocal.

Sempre amei cantar. Desde que me lembro por gente, fazia parte de um coral. Por uns 3 anos, na minha infância, fazia parte de dois corais, além de frequentar os ensaios do “coral dos adultos”, do qual minha mãe fazia parte. Ia com eles nas viagens e tudo. Uma vez me chamaram no palco e me apresentaram como mascote. Fofo.

Tudo bem, eu amo cantar. Mas não canto bem e garanto que não se trata de um excesso de auto-crítica, ou uma tentativa de angariar elogios (ai, capaz guria, você canta muito bem!). É a verdade. Assim como nunca fui uma boa pianista. Eu era apenas uma pessoa muito esforçada e todos os professores que tive gostavam de mim por isso. Há os alunos talentosos, os esforçados e os nulos. Eu era a esforçada.

Tenho uma amiga muito talentosa, a Eliz, quem eu admiro muito. Foi ela que me fez perceber essa diferença entre talento e esforço.Não sei exatamente como explicar, mas quando me deparei com ela, ficou muito claro que eramos diferentes. Tudo para ela era mais natural, enquanto pra mim exigia suor. No piano, ela conseguia tocar coisas muito mais difíceis, muitas vezes sem nem ter partitura. Já eu estudava tudo até a morte. Lembro de ter 13 anos e ouvir de minha mãe: “Você precisa tocar com mais emoção! Parece que você está tocando com raiva!”. A peça era uma simplificação da Sonata ao Luar, de Beethoven. Não havia nada a se fazer, eu era o triunfo da técnica!  O lado bom disso é que percebi que mesmo a ausência de talento pode ser superada pela dedicação. Não acredito que o resultado será o mesmo, mas terá um valor muito grande, pelo menos pra pessoa que se sabe superador de seus desafios.

Consciente disso, estava contente com a possibilidade de des-desafinar. Eis que  a crise, digo, vida, resolveu me trollar e minha professora foi forçada a abandonar minhas aulas pois havia trocado de emprego e passaria a trabalhar todos os dias, o tempo inteiro. Não fiquei chateada, porque sei que é, no momento, o que ela precisava. Mas fiquei triste sim. É ruim tentar tirar do fundo do seu âmago uma força de vontade que você nem sabe se tem, e esbarrar em coisas como esta.

Para não desistir logo no primeiro momento e tentar me convencer de que eu posso ser uma pessoa forte, fui atrás de dois professores que tive no segundo grau. Para encurtar a história, eles não poderiam me atender, por falta de horários. Não sei bem como mas de repente estava no Coral da minha universidade, para ver se teriam pelo menos alguma informação para me dar sobre aulas de canto. Descobri que aquela era exatamente a semana de testes para entrar no Coro e quem estava aplicando esse teste era a professora do segundo grau que eu tinha procurado antes. Não, também não havia nenhuma forma de eu ter as ditas cujas das aulas. Okay, é uma pena. Já estava tão preparada pra ouvir isso que nem me surpreendi e agi com muita dignidade. Porém, nos 45 minutos do segundo tempo, a professora falou: “Ah, tá bom, aparece na sala tal na quarta feira que eu te encaixo nos horários! Não tem problema”.  E então eu vi que era o esforço que me fazia merecedora, novamente.

A quarta feira ainda não chegou, estou com muito medo e muito ansiosa, mas quero me provar capaz. Quero resgatar a motivação e o esforço que deixei pra trás, e nenhuma falta de talento vai me impedir. Nem as milhares obrigações acadêmicas.

Talentos

Hoje em dia eu sei que escolhi o curso de Letras porque tenho “talento” para aprender idiomas estrangeiros. Falar isso é muito estúpido. Conheço algumas pessoas que falam 5 idiomas e sempre tem aquele que fala 20, não é?  Eu, além de minha língua materna, conheço inglês e francês e, sim, tem muita auto-crítica aí para me fazer dizer que conheço esses idiomas ao invés de dizer que “sei”. E aquela coisa de que “só sei que nada sei” é a lei aqui. Tenho muita preguiça de gente que acha que ou se sabe ou não se sabe um idioma.  Ou qualquer outra coisa. (Sinceramente, alguém acredita mesmo que é possível deter o “conhecimento completo” de alguma coisa? Pior é ter que ouvir isso de universitário!)

De qualquer forma, alguma coisa em mim acha que é esse o meu talento e eu acho que concordo. O motivo mais provável é que eu não preciso me esforçar para conseguir o que consigo, faço por prazer. Talvez eu devesse começar a me esforçar e então eu seja entrevistada por alguma revista.

Invejas

Muitas vezes ouço alguém falar em “inveja boa” ou “inveja branca”. Eu mesmo já me peguei usando isso como se fosse um conceito que eu entendesse mas… juntar “inveja” com “boa” só em textos poéticos. Inveja, pelo menos pra mim, vai além de “admirar+desejar aquilo para si”. Além de querer ter-ser o que o outro tem-é,  invejar é querer que o outro pare de ter-ser aquilo! É uma coisa bem egoístas. Digo isso porque invejo as pessoas que são felizes e no fundo eu queria mesmo é roubar a felicidade delas. Ou talvez eu seja muito sacana mesmo.