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Coisas estranhas da Venezuela

7 ago

Viver em outro país é como fazer um tour numa savana: você observa o comportamento dos animais, digo, das pessoas, em seu habitat natural, é atingido por eles em alguns momentos, como quando uma zebra se aproxima do seu jipe e te lambe, mas no fim tudo bem. Você volta pro seu hotel e fica com fotos incríveis para colocar no seu instagram e algumas boas histórias pra contar.

Deixo aqui uma pequena lista de coisas que me chamam a atenção observando o dia-a-dia da Venezuela.

1- O Toddy que não acompanhou a evolução da engenharia de alimentos

Uma ótima maneira de trazer a infância de volta, afinal: relembrar é viver! Por aqui, o Toddy continua igual ao dos anos 90 e forma muitas pelotas de chocolate, não sendo capaz nem de mudar muito a cor do leite. Obviamente, dá pra dissolvê-lo bem se o leite estiver quente, mas quem quer leitE quentE em dias de 30°C?

10570489_10202617107404021_30146998751437378_nResultado da mistura feita sem aplicar nenhuma técnica de infância, como colocar primeiro o chocolate e ir adicionando o leite aos poucos, enquanto mexe. Por motivos científicos. 

 Já que leite quente dói no dente, a opção mais popular por aqui é bater a mistura no liquidificador, o que para mim entra na categoria “trabalho excessivo e absurdo”, mas que aqui é considerado nada mais que normal, o que me leva ao segundo ponto:

2- Venezuelanos não têm preguiça na cozinha

Não sei você, mas para mim, usar o liquidificador toda vez que tomo um toddy está além das minhas capacidades. Ok, eu sei, faz espuminha, fica mais gostoso, mas mesmo assim!  Já aqui, isso parece ser a regra e todos ficam felizes com isso. Porém, o que eu entendo ainda menos é a energia dispensada à preparação do café da manhã.  Quer dizer, na minha família, nossa vontade de fazer qualquer coisa de manhã é tão pequena que preferimos comprar pão na noite anterior e comer pão amanhecido no café. Café coado nunca foi visto, porque isso é trabalhoso demais, então dale nescafé! Além de pão, podemos ter também coisas já prontas ou sem necessidade de preparação, como frutas, cereais e bolos preparados anteriormente, ou comprados prontos mesmo, oras! Nos raríssimos dias – sempre feriados, jamais dias úteis – em que minha mãe acorda inspirada e faz ovos mexidos eu pergunto: Quem é você e o que você fez com minha mãe??!?? Além de achar super estranho, confesso que acho bem desnecessário, afinal, comer ovo de manhã é um exagero.

Mas não aqui na Venezuela. O café da manhã mais tradicional é a arepa, sempre preparada na hora. É verdade que a preparação é extremamente simples: misturar a farinha de milho (harina pan) com água e sal, preparar o formato e colocar em uma frigideira untada com óleo. Simples, fácil e até que bem rápido, mas o fogo tem que estar baixo para conseguir assar a parte de dentro sem queimar a parte de fora, e isso vai te levar pelo menos uns 15 minutos para preparar arepa para no máximo duas pessoas. Eu sempre tenho a impressão de que de manhã cedo o tempo parece passar muito mais lentamente, então 15 minutos passam pela minha cabeça como se fossem 30. Ou seja, são quinze minutos que parecem trinta  em que você poderia estar dormindo mais na sua caminha! Ainda pior se você estiver preparando comida para uma família maior, aí o choro é livre.

Olha, se eu tiver que escolher entre comer arepa com 15 minutos a menos de sono ou então comer um pão com manteiga com 15 minutos de sono a mais, escolho a última opção sem pestanejar.

Muitos minutos de sono perdidos num prato só 

Nas vezes em que viajei por aqui com famílias venezuelanas, morri de tédio e sono só vendo eles prepararem o café da manhã, imagina se teria força para fazê-lo! Afinal, não só de arepas se faz um desayuno: tem que passar o café, esquentar o leite, fazer um suco de frutas natural, ou até mesmo dois sucos diferentes, de acordo com a preferência dos familiares, colocar as mil opções de molho na mesa, queijos, presuntos, tudo em variedade. Além disso, venezuelanos adoram ovo de manhã. Só que não basta ser apenas um ovo mexido, tem que ser o tal do “Perico”, que é ovo mexido com muita cebola e tomate, que você obviamente tem que picar, e olha… começar o dia já chorando por causa de uma cebola é demais para mim.

3- A impossibilidade de fazer ligações a cobrar

Saindo do tema “comida” e falando de uma coisa que efetivamente me incomoda, aqui não se poder fazer ligações a cobrar. Não que eu queira ficar ligando para as pessoas sem pagar, até porque detesto falar no telefone. Mas sempre tem aquele momento em que você precisa e muito falar com alguém e não tem crédito. Em geral, isso acontece em viagens. Você está em um povoado, num domingo, onde não existe a menor possibilidade de comprar mais crédito e simplesmente não consegue ligar para seus companheiros de viagem, ou para o seu hotel, ou para o amigo que você pretende visitar aí. Sem crédito você também não tem internet e wifi liberada já nem é tão comum em Caracas, imagina em pequenos povoados.

Até imagino que seja assim em muitos outros países e nem lembro como era na França, mas continuo achando que isso deveria mudar. Aliás, apoio que a revolução traga internet gratuita para todos em todos os locais AGORA!

4- Se dirigir a todas as pessoas com palavras carinhosas 

Já tinha comentado num post anterior sobre o costume que muitas pessoas aqui tem de chamar os outros de “mami” e “papi”. Mas a coisa vai muito além, como termos como “mi amor” , “mi bella/o” sendo usados sem nenhum critério de intimidade, e o que na minha opinião é mais impressionante de todos: MI REINA.

Sim, minha rainha.

Minha reação interna sempre que ouço isso

O motivo pelo qual eu acho isso muito estranho e cômico é bem simples: eu sou de Curitiba. Já pensou você na fila do Mercadorama, plenas 18 horas, se dirigindo à trabalhadora do caixa assim : “Minha rainha, dá pra apurar? ”  ??????????????????????????????????????

Fica a dica de um teste sociológico pra quem quiser.

 

É isso

 

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Venezuela for dummies – o que você precisa saber antes de viajar

16 mar

Sei que a Venezuela não é exatamente o destino número 1 na lista de desejos da maioria das pessoas. Na verdade, é mais provável que ela não figure sequer no top 20. Isso é uma lástima, já que o país tem atrações lindíssimas, com grande destaque para suas praias caribenhas, o monte Roraima e o Salto Ángel, a catarata mais alta do mundo. Além disso, é possível encontrar passeios para todos os gostos, sendo possível sair da praia na lha de Los Roques e ir para Mérida aproveitar a neve e a vista dos Andes.

Salto Ángel

Apesar de poucos conhecerem as razões para conhecer a Venezuela, muitos estão conscientes dos motivos pelos quais não vir para cá, sendo a violência, sem dúvida, o maior entre eles. Obviamente, é preciso estar consciente e bem preparado. É comum nos sentirmos relaxados durante viagens, esquecendo de tomar cuidado dos nossos pertences, principalmente em locais muito turísticos, quando estamos entretidos em tirar fotos. É por isso que muitos são roubados em viagens à Europa, mesmo ela sendo mais segura que o Brasil. No caso de países com alto índice de criminalidade então, a atenção deve estar sempre redobrada.

Isso, porém, não é nenhuma exclusividade daqui. A coisa sobre a qual eu considero mais importante saber e que é, esta sim, uma peculiaridade venezuelana, é o Câmbio negro. 

E o que é isso? 

O governo venezuelano tem controle das divisas e, por isso, não se pode comprar moedas estrangeiras a qualquer momento, nem em quantidade livre. Tanto para compras online quanto para viagens internacionais, existem sistemas de controle e de autorização para compra de outras moedas. O valor pago pelos venezuelanos através desse sistema é bastante justo – nesse momento, o dólar está cerca de 6 bolívares, sendo que em reais é cerca de 3 –  porém, devido ao limite de compra (nem um pouco democrático, diga-se de passagem), o que acontece é que existe um mercado paralelo de compra e venda. Como o bolívar não é uma moeda estável, o preço do dólar tende a estar sempre subindo e, por isso, os venezuelanos são obcecados por ter dólares e guardá-los para quando precisar.

dólares, dólares

E o que isso significa para um turista em potencial? 

Significa que seu dinheiro (dólares ou euros – ninguém se interessa em ter reais) se multiplicará e multiplicará de acordo com o mercado paralelo. No caso, um dólar agora vale uns 80 bolívares, enquanto um euro vale 110. É claro que para nós, que ganhamos em reais, o lucro não é tão grande, mas ainda assim acaba custando menos que uma viagem dentro do Brasil. Há pacotes para Margarita, por exemplo, que incluem ida e volta de Caracas, hospedagem com comida e bebidas à vontade por menos de 1000 bolívares o dia, ou seja, menos de 40 reais.

Parece ótimo!!! Vamos então ver quais são os contras:

Como trocar meus dólares no mercado paralelo? 

Me parece no mínimo estranho sair perguntando por aí  “E aí, quer comprar uns dólares?!?”, mas é assim mesmo. Em qualquer lugar se encontra cambistas. O problema é que pode ser que você acabe vendendo sem saber o valor exato do bolívar naquele momento, e saia no prejuízo. Além do risco de mostrar todo seu dinheiro assim para um desconhecido, num país com taxas alarmantes de criminalidade. Por isso,  o melhor, para quem pode, é já ter seus contatos prévios – do tipo “o primo do amigo do meu vizinho conhece alguém” – e conferir os preços no dolartoday.com  Quem não tem conhecidos terá que trocar com cambistas mesmo, e torcer para não esbarrar em nenhum mal intencionado.

Posso usar cartões de crédito ou travel cards? 

Em princípio sim, mas na verdade, não. Se você usar algum cartão, estará necessariamente pagando pelo câmbio oficial, e seu prejuízo será enorme. Como dito anteriormente, oficialmente 1 dólar é apenas uns 6 bolívares e aí, meu amigo, você será pobre, bem pobre, pois as coisas aqui são caras (40 bolívares um pão, 300 uma garrafa de rum). Mas, de qualquer forma, até onde me consta, os cartões internacionais simplesmente não funcionam direito, e eu imagino que isso se deva ao controle de compra e venda feito pelo governo, que impede o câmbio automático da sua moeda para bolívares. Então, é necessário trazer todo o dinheiro em cash, o que é obviamente péssimo e muito perigoso.

E como saber quanto dinheiro trocar? 

Isso varia do estilo da sua viagem mas o certo é que não se deve trocar todo seu dinheiro já no primeiro momento, pois se sobrar, será prejuízo. Ou não, você sai gastando mesmo, ostentando e agregando valor, afinal:

Eu sou rica! Rica!

A segunda informação, ou conselho, mais relevante para quem vem à Venezuela é Tome cuidado com os taxistas. Isso não significa apenas que eles irão te dar informações erradas, para que você pense que não conseguirá chegar à pé a um determinado local. O que acontece é que aqui há os táxis do bem e os táxis do mal, vamos dizer assim.

Whaaaaaaat?

É sabido de todos os venezuelanos que não se entra em qualquer táxi. Eu sinceramente não quero nem imaginar o porquê. Não gosto de imaginar coisas ruins e me limito a apenas acreditar que não se entra em qualquer táxi. É necessário sempre chamar uma empresa por telefone e esperar que te busquem. A informação sobre quais empresas ligar pode ser passada aos turistas nos hotéis. No caso do aeroporto, a coisa é ainda mais bizarra: existem os táxis oficiais – os do bem – e os extra oficiais, que são os do mal. Há vários relatos (como este) que contam que taxistas não licenciados frequentemente colocam os clientes para fora do caro em movimento e assim roubam toda sua bagagem, ou levam os clientes até o local onde se encontram os ladrões de verdade, e aí as chances de haver armas de fogo são muitas. O mais esquisito é que os motoristas não autorizados tem acesso livre ao salão de desembarque, sendo os primeiros a abordar aqueles que acabam de chegar, quase sempre desinformados. Isso aconteceu comigo, pois tive que esperar cerca de 5 minutos pelo motorista encarregado (que veio segurando uma placa com o nome do meu local de trabalho) e isso foi tempo suficiente para eu ter que me livrar de dois taxistas, que insistiam para que eu fosse com eles. Imagino que qualquer pessoa desinformada iria supor simplesmente que se trata de taxistas normais, e que esse tipo de abordagem é comum por aqui. Porém, os taxistas “de verdade”, aqueles que são licenciados, esperam em fila na parte de fora do aeroporto. É lá que todo turista deve ir. Para informações mais específicas sobre isso, ver o link logo acima.

Nas ruas, é também comum essa abordagem de taxistas. Já me aconteceu de estar esperando num ponto de ônibus, novamente por um período muito curto de tempo (menos de 10 minutos), e ser abordada por vários motoristas, que são bastante insistentes, e isso é bem chato. Além disso, a situação dos carros aqui é trágica. Sério. Não tem nenhum tipo de uniformização, nem de modelo nem de cor, e geralmente eles não tem cinto de segurança nos bancos traseiros. O que mais se vê são carros no estado de lata velha mesmo. A velocidade com que dirigem é assustadora, além do trânsito por si só ser caótico. E isso eu estou falando dos táxis do bem. Então, pegar um táxi aqui, pelo menos em Caracas, é sempre uma emoção.

Foto que representa bem a realidade da coisa.

E pra fechar com chave de ouro o assunto, simplesmente não existe taxímetro, então você tem que negociar o preço até seu destino final antes de embarcar. O sotaque estrangeiro deve ser uma grande razão para uma inflação súbita do valor, eu imagino.

É isso.